quinta-feira, 12 de julho de 2012

Laços primários



Não me implore para repetir semblantes,
Por quantas vezes eu conseguirei fazê-lo?
Caminhando por essas estradas brilhantes,
Vejo que todos os anos um pouco envelheço.

O motivo não é a importância que eu dou,
Os momentos sim, que quero poder viver.
Sempre lutando para seguir no que sou,
Mesmo com tantas pedras duras a suster.

E no raiar do dia no meu aniversário,
O relógio desperta e mostra, hoje é a data
E sei que nunca mais serei tão solitário.

E aos meus amigos, bons e fortes acrobatas,
Que ajudam-me a mover as pedras da jornada,
Meu eterno carinho, e meu muito obrigada.

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Hoje, dia 12 de julho de 2012, faço 16 aninhos. Parabéns para mim!! Este soneto é o meu presente de aniversário para todos vocês. Espero que gostem!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Imensidão crepuscular



                Eu estava deitada na prancha de surf, sobre o mar calmo, as mãos submersas na água gélida. Ele parou a prancha dele ao meu lado, estava com o corpo mergulhado, e os largos braços cruzados e apoiados, os olhos me fitando.
                - Alguém já te disse que você tem olhos lindos?
                - Não. – Respondi enquanto buscava alguém na memória que alguma vez tivesse elogiado meus olhos castanhos.
                - Seus olhos são tão bonitos, penetrantes. Não são da cor escura do pinheiro ou do carvalho, são mais simples, mais tocantes. Também não se comparam ao mel ainda na colmeia, claro e doce. Seus olhos são como o pôr do sol, magnífico e calmante. É o marrom da mistura de cores do crepúsculo, o azul misturado com o vermelho, as ondas de amarelo, o castanho no final das nuvens. Sim, eles são como a noite que me magnetiza, eles me fazem pensar sobre os anseios da vida, passam calor, passam escuridão. Refletidos na água do mar, a mesma onde o sol se pôs, eles me chamam para um mergulho. Nunca diria não, na verdade eu não diria nada. Apenas mergulharia nesta sua imensidão tão complexa e encantadora.
                Aqueles segundos que fiquei parada, encarando aqueles olhos azuis celestiais me fizeram perceber a quão apaixonada eu estava. Não hesitei, mergulhei e sumi alguns instantes, retornando com o rosto molhado e a boca pronta para um beijo de poesia.

domingo, 17 de junho de 2012

Ser de sensações


                       Estava pensando com os meus botões enquanto tomava banho, porque sabem que as melhores ideias vêm de uma fonte de água que cai devido à gravidade em nossas cabeças e nos faz filosofar sobre os mais diversos assuntos, e pensei na sensação boa que era receber um jato de água quente sobre as minhas maçãs do rosto, que são grandes o suficiente para me proporcionarem diversas. Resolvi, então, escrever sobre as melhores sensações do mundo para mim, as quais devem ser iguais, parecidas ou talvez nunca pensadas por vocês. Sei que uma frase levará a outra e assim por diante, talvez eu nunca termine este texto, talvez eu sinta demais e goste até mais do que devia deste fato. Uma sensação puxará outra, e por infinitas linhas os seus olhos passarão da esquerda para direita, mas isso não me incomoda, não deveria te incomodar também. Conforme você for lendo, sentirá que deve continuar, porque não sabe o que virá a seguir, se você vai descobrir algo novo para tentar, ou se simplesmente dirá à você mesmo o quanto se parece comigo. Devo já começar o texto, tendo este parágrafo enorme só como introdução, talvez me achem chata, mas passem os olhos pelas linhas abaixo e vejam se no final, ou onde a lâmpada na sua cabeça acender, continuarão com a mesma opinião.
                Ainda no banho, outra sensação que me agrada é quando o jato alcança seus cabelos, desce pelos ombros e assim por todo o corpo, chegando aos pés. Se o corpo estiver quente e a água fria, ela é mais acentuada ainda. Adoro quando estou suja demais para me aguentar e entro no chuveiro, é como se uma parte de mim estivesse descendo ralo abaixo. Mudando um pouco do aspecto do banho, a sensação de quando é beijada no rosto é quase indescritível.
                Hoje eu sonhei que um tal de Felipe, que nunca vi na minha vida, estava jogando um jogo o qual nunca vi também: éramos dois times, um com espadas e outro com algo que não me lembro, sendo o meu time o que não me recordo. Perdi minha arma, talvez tenha sido isso que me fez esquecer o que era, e o jogo começou. Ele veio me atacar e eu segurei sua espada, atacando-o e o ‘matando’. Claro que ele não morreu, mas agora era inválido no jogo. Ele começou a conversar comigo e viramos amigos de longa data, esquecemos que éramos inimigos. No fim do sonho, sendo esta a última coisa que me lembro, ele me beijou no rosto e tudo se apagou. Oh! Que sensação boa, de vergonha, timidez, mas de carinho ao mesmo tempo. Receber um beijo no rosto de um estranho, conhecido, namorado ou familiar é muito bom. E os beijos na testa? Remetem, pelo menos para mim, um gesto de estrema proteção. Lembro-me de apenas de quatro pessoas que fizeram isto comigo: os meus dois pais e meus amigos Tiago e Felipe. Talvez não seja a mesma coisa para você, leitor, mas para mim significa muito.
                Correr atrás do que se quer também me deixa muito feliz, não no sentido de alcançar o que se quer, mas de correr com as suas próprias pernas, no chão. Acho que continuo sendo metafórica neste ponto, mas vamos ao exemplo: quando você corre em um parque, na rua ou na escola, sem ninguém na sua frente, tendo em mente alcançar um ponto, isto não te dá uma sensação de liberdade e confiança? Acho que cheguei ao meu ponto, pois sim, correr atrás do que se quer e sentir o vento nos cabelos é uma sensação perfeita para mim.
                E quando se abraça alguém que não se vê há muito tempo? Aquela pessoa que tanto significa para você e que já ficou horas no telefone a fio? A sensação de abraçá-la, segurá-la por um tempo infinito e incalculável não me permite dizer tudo o que queria. Sexta-feira passada, guarde a data deste texto, se não ficará perdido no tempo, abracei alguém que não via há séculos, Fernando. Sim, meu xará masculino e meu amigo, se é que vocês entendem o sentido de amigo aqui. A sensação de paz, de carinho, de saudade se esvaindo, tudo junto e misturado, que não queria sair de mim. Se soubesse o quanto isto era bom, ficaria mais tempo sem vê-lo, só para relembrar tudo, mas não aguentaria isso.
                Comer quando se está com fome, ou só porque a comida é deliciosa, também é muito bom. Ontem, na Confeitaria Colombo, degustei um waffle com sorvete e cobertura de framboesa. Posso descrever em uma palavra o que senti quando levei à boca o primeiro pedaço: felicidade. Vocês devem sentir isto também quando estão perto do momento de saborear umas das suas comidas favoritas, é aquele momento de adoração, que a boca enche de água e que o seu estômago sabe que receberá mais uma dose de felicidade.
                Finalmente entender uma matéria é igual a fogos de artifícios em mim, principalmente em física e química. Não sei vocês, mas eu adoro aprender, só tenho um pouco de dificuldade quando não entendo nada da aula e fico boiando depois.
                Como pude me esquecer de dormir? Todos, mas digo todos amam dormir. Mais cinco minutos é o que pensam quando acordam cedo demais para ir ao colégio, trabalho ou qualquer outra coisa. Melhor do que dormir é acordar no meio da noite e perceber que ainda faltam mais de três horas para o despertador tocar!
                A sensação que descreverei a seguir não é uma das minhas favoritas, mas tem vezes que sinto saudades de fazê-la. Andar descalço na praia. Sentir a areia por entre os seus dedos, o calor que ela tem no momento, sentir o mar bater contra os seus pés enquanto você caminha, chutar a água para o alto, tudo isso são as sensações da praia. Gosto mais de cachoeira, a água batendo nas suas costas na queda d’agua, a adrenalina de cair em uma pedra com limo, o ar puro, o sol entre as árvores, tudo muito natural, muito perfeito. Os dois me trazem lembranças boas, de construir castelos de areia e de observar pedra formando círculos quando atiradas na água.
                Mergulhar no mar azul faz parte da descrição acima. A água gelada e o mar infinito, as ondas que batem na sua cintura até que você tome coragem para imergir. E quando isto acontece, ainda no fundo, você sente a água invadindo cada pedaço de si, o sal retirando todas as impurezas do seu corpo. E quando emerge a superfície nada é como antes, o sol parece mais amarelo e a água um pouco mais verde, e você se sente nova.
                Lembrar-se de alguém quando se escuta uma música. Dormir ouvindo a sua predileta. Reparar que o seu vizinho está escutando ‘I want to break free’ do Queens e parar de digitar só para ouvir, que seria o meu caso neste exato momento às 19h53min. Lembranças e descobertas que nos fazem sentir vivos, que existe alguém lá fora que te escuta e que te entende, a sensação que você não está sozinho no mundo.
                E o cheiro de um livro? Aquele novo que acabou de ser comprado, ou mesmo aquele velho que estava na estante da sua avó. É um novo mundo que adentramos para fugirmos da realidade, e ali nos sentimos seguros de tudo e de todos, e viajamos...
                Algumas pessoas podem discordar de mim, mas encontrar o lado frio do travesseiro no meio da noite me dá uma sensação de conforto, de alívio. Igualmente quando a sua cabeça encaixa certinho, quando você encontra aquela posição que não quer sair jamais.
                E aquela velha história que amigos se contam nos dedos vem a calhar agora. Aqueles momentos rápidos de risadas que se tem com eles, aquelas piadas sem graça de todos gostam, vulgo Mylenna agora. A falta de ar que temos uma vez ou outra de tanto gargalhar, e as maçãs do rosto que ficam doendo depois de tantos sorrisos. É como se o mundo todo estivesse ali, como se o seu mundo estivesse ali, tudo o que você precisasse estivesse bem ali, debaixo dos seus sorrisos.
                Encontrar alguém com os mesmos gostos que você. O mesmo gosto de escrever, Amanda deve entender, o gosto musical, o gosto de jogar boliche, o gosto de fotografar. A sensação de compartilhar com os outros o que você sabe sobre aquele assunto, e ver a admiração da pessoa prestando atenção. É uma sensação de orgulho de si mesma, porque o ser humano tem em si o ato de compartilhar e receber, de interagir com o outro e de se sentir bem com isso. Encontrar alguém parecido com você faz com que nossas qualidades sobressaltem em nós e nos outros, faz-nos pessoas melhores.
                Percebo agora que já estou me prolongando demasiadamente, mas faltam ainda tantas ações que nos provocam tantas sensações. Andar de bicicleta pela primeira vez, andar de mãos dadas com quem se ama, admirar-se com algo, notar que você estuda o que você quer ser, orgulhar-se de algum trabalho seu que demorou mais tempo do que devia para ser feito, receber um segredo de alguém, salvar uma pessoa de ser atropelada (sim, em São Cristóvão é comum ocorrer salvamentos), não deixar que o andar de baixo do seu prédio pegue fogo...
                Antes de terminar este texto, deixe-me contar sobre o dia em que me senti a salvadora da pátria. Serei rápida. Já estava de noite, por volta das onze horas da noite, não sei o que fazia acordada, mas um cheiro de queimado não me permitia ficar quieta. Fumaça pela casa, mas não havia nada no forno. Olhei para o andar de baixo e vi uma fumaça preta saindo do primeiro andar, e eu estando no terceiro. Desci apressadamente, bati na porta, avistei o proprietário roncando no sofá e a fumaça subindo. Toquei o interfone, o cachorro latiu, ele acordou, a mulher acordou. Quando ele abriu a porta não houve outra reação se não perguntar se algo estava queimando, e obviamente estava, devido a casa dele estar mais preta do que qualquer coisa. “Não foi nada, minha mulher esqueceu uma panela no fogo”. Sim, esta é uma desculpa razoável, mas como não acordaram? Como não sentiram o cheiro de queimado que me atazanava lá no terceiro andar? Como não ouviram os meus gritos? Senti orgulho de mim mesma, sendo a salvadora do dia, e do prédio.
                Ah quantas coisas ainda há para descrever, e quantas histórias ainda têm para contar, mas suponho que já estejam cansados de mim. Se você, leitor, conseguiu chegar até aqui, agradeço pela atenção. Não é todo dia que a recebo, e devo dizer que esta é a última sensação que relato hoje. Ser escutado é se sentir o dono do mundo, sentir-se importante, notar que o seu assunto não interessa só a você, mas que é discutível a outras pessoas. Não ser ignorado é ser aceito, ser percebido. E nesses poucos, ou talvez muitos, momentos de conversa atenta, compreendemos que um texto enorme não diminuirá o seu tempo de vida e nem será em vão, porque quando se presta atenção a qualquer coisa, ela passa a ser importante. Porque todos têm a sua importância, e os olhos que leem o papel ou os seus lábios são os mesmos que enxergam o mundo, e como você e as suas sensações são vividas, mesmos tão dentro de si, mesmo tão simples de tudo.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Ouvidos cautelosos


Quando pássaros param pra falar
Escutar é sim o melhor remédio,
A melodia ecoa em todo lugar
E permanece o maldito mistério,

Repugnante mistério de ir e vir
O mistério de estar e não chegar
De todos os cantos vir a omitir
De todas as bocas vir a tapar,

Desproteja os seus dois ouvidos e olhos,
Pássaros são como a nossa gente,
Que naqueles poucos cantos mais solos
Deixam o mistério resplandecente.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Vagos alheamentos


        “Não sei por quantas vezes eu chorei por você estar longe, por não poder tocar a sua pele macia e chamar-te para a cama. Já perdi as contas quantas vezes eu me peguei chorando no banheiro, trancado, sufocando-me nas minhas lágrimas, para ver se morria logo. A sua ausência aos poucos me corrói, a saudade deixa um gosto amargo na minha boca, e eu já não posso viver sem você.
        Não sei se nestas viagens malucas suas, você encontrou alguém novo, para se distrair ou formar o que chamamos de família. Não sei se devo confiar na minha insegurança ou na minha insanidade, já que nenhuma delas me dá o equilíbrio que preciso. Eu preciso de você.
        É claro como a água o quanto eu te amo, mas você parece não corresponder quando está distante. Não sei quanto já gastei com selos, e se as cartas chegaram aos seus destinos, mas você nunca se importou em respondê-las, ou simplesmente escrever uma para mim, por livre e espontânea vontade. Isso me deixa triste, faz com que eu me sinta rejeitado.
        Ás vezes eu ando pela casa a noite pensando em você, em como cada canto tem uma lembrança, cada foto tem uma história. Lembro-me do dia em que nos conhecemos, foi tudo tão inesperado. Estava chovendo, meu cabelo mais molhado do que nunca, e eu já não enxergava mais a rua, apenas as luzes dos faróis dos carros. Você parou e me ofereceu uma carona, quem diria que eu me apaixonaria por você. Seus olhos, seu cabelo, sua boca, tudo me encantou neste perfeito encaixe da natureza.
        Aqui estou eu novamente com lágrimas nos olhos, não consigo me conter quando penso em você. Eu não consigo mais manter esta distância, eu preciso que você esteja comigo aqui, que não passe meses no exterior fazendo sabe lá o que. Eu preciso do seu corpo, da sua alma, do seu amor.
        Não sei se me arrependerei de escrever esta carta, mas eu estou indo. Estou deixando tudo para trás, assim como você fez comigo. Eu não posso mais suportar isto. Talvez você ache esta carta no meio da sua papelada, ou talvez no lixo, eu ainda não decidi onde pô-la.
        Eu te amo mais do que tudo, mas não posso pedir que venha atrás de mim, eu não tenho mais forças.
                                                                                
                                                                                                Saudades,
                                                                                                                      Craig.”

        E eu me fui, voltei para o meu apartamento e me tranquei lá, as lágrimas escorrendo, meu rosto vermelho. Eu o amava mais que tudo, e aquilo doía, aquilo me consumia. Uma ligação, duas ligações, três ligações. Era hoje que o Daniel voltava da viagem, eu não sabia se ele já havia lido a carta, ou se estava apenas me procurando. Quatro ligações. Tapei os ouvidos, gritei. Cinco ligações. Meu coração palpitava mais que nunca. O telefone parou e eu adormeci.
        Seis ligações. Acordei desesperado e atendi. O som da sua voz mudou tudo.
        - Craig? Craig? Você está aí? Eu estou indo...
        Desliguei o telefone, não aguentaria nem mais um minuto, nem um segundo longe dele. Desci as escadas e peguei um táxi. Sete ligações. Será que ele já havia chegado em casa? Mais meia hora no trânsito. Oito ligações, nove ligações. Ele chegou em casa.
        O elevador do edifício nunca demorou tanto para chegar ao quinto andar. Abri a porta do apartamento, os pés mal tocando o chão, cheguei perto da porta do escritório. O telefone vibrou no meu bolso. Dez ligações. Daniel com a carta em uma das mãos e o celular na outra. Ele pôs as duas mãos na cabeça e soltou um soluço alto, ele estava desabando.
        - Não, não, não! – Ele gritava com as mãos na cabeça.
        - Eu não sabia se você já tinha chegado.
        Ele me olhou, parecia estar com ódio de mim. Levantou-se da cadeira, caminhou ate a porta e parou. Encarou-me, jogou a cabeça em meu ombro, os braços em volta de mim e as lágrimas na minha camisa.
        - Nunca mais faça isso.
        - Eu não posso mais, eu não posso.
        - Não! Nunca existiu outro alguém, nunca. Eu te amo tanto, não faça isso. – Passou a mão no meu cabelo. – Eu saio, eu me demito, eu faço qualquer coisa.
        - Qualquer coisa?
        - Qualquer... – Ele me olhou com os olhos aflitos.
        - Beije-me.
        E a carta ficou no passado.


Pauta para Bloínquês, 118ª edição visual, tema: foto.

2° lugar aqui.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Tulipas do Túlio


         Dizem que o universo nos dá uma chance única para conhecermos de perto o que chamam de amor. Na minha história havia um trem, um horário, um atraso e uma perda irremediável. Aquela perda que ninguém quer experimentar, o chute no universo que nos faz desabar, a chance desperdiçada por erros banais, por erros meus.
         Não me lembro de nenhum instante da minha vida que não queria compartilhar com Túlio. Éramos amigos de infância, aquele tipo que se ama mais que tudo, que se protege e que confia. Não deveríamos ter confiado no tempo, ele nos separou com escolas, universidades e cidades diferentes. As mensagens por celular e os telefonemas não bastavam. A memória sumia com o tempo, a saudade era suprida por outras tarefas, outras pessoas.
         Ele me ligou, disse que sentia minha falta, disse que queria me ver. E com o coração palpitando eu mal conseguia responder ao seu pedido. O que não esperávamos é que o tempo se intrometesse novamente, que a mãe de Túlio morresse, que meus estudos decaíssem, que os minutos passassem mais rápido. Logo, o que era um pedido de dias, tornou-se um pedido de meses.
         Túlio me ligou, estava com a voz seca, o ar triste, a fala demorada. Não conseguia reproduzir as palavras. Eu falei por ele. Marquei outro encontro, em outra cidade, com novos ares para esquecer tudo o que havia acontecido nesses últimos meses.
         Lembro-me de ter corrido muito, de ter deixado a cama bagunçada e o café da manhã na geladeira. Lembro-me de ter tropeçado na esquina do trem, e não me importar com isso. Lembro-me de ter visto o trem indo embora, o único do dia, da minha vida. Lembro-me de ter chorado, de ter soluçado, e de ninguém ter perguntado se estava tudo bem.
         O trem passou, e levou junto minhas esperanças, meu amor, minha alma. Com ele ia todas as expectativas de encontrar Túlio, de acariciar o seu rosto agora com a barba crescida, de tocar suas mãos calejadas pelo piano, de beijar a sua boca para que não precisasse emitir mais nenhum som, nenhuma palavra sobre o passado.
         E ali eu fiquei, parada da estação de trem, imaginando Túlio me esperando em outra cidade, com um buquê de flores, ou apenas os seus longos braços para me abraçar. Não me mexi por um longo tempo, as lágrimas ainda caíam em meu rosto, e eu não parava de pensar na chance que havia perdido. Pelo simples motivo que Túlio viajaria para Paris no dia seguinte a trabalho, e só voltaria dentro de um ano. Paris estava muito longe para mim, e eu chorava por tê-lo perdido, novamente.
         E uma mão tocou o meu ombro, meus olhos se abriram com um pouco de dificuldade, e eu podia ver a figura de um homem alto segurando tulipas vermelhas.
         - Pensei que não te veria. – Ele disse em meio a um sorriso.
         Eu me joguei em seus braços, derrubei as tulipas e beijei os seus lábios. Uma sensação muito melhor da que eu imaginava. Ele estava ali, havia pegado o trem de volta para a minha cidade, sentiu-se incomodado quando não me viu no trem que chegou há horas no seu destino. Ele veio por mim e por toda a nossa história, que estava incompleta, mas que ressurgia com traços de ouro.
         - E Paris?
         - Acho que Paris pode esperar até amanhã à noite.
         E ele me beijou novamente, só viajaria no dia seguinte, e a minha casa seria a sua casa por esta noite. Quem sabe por muitas outras que ainda estão por vir. Paris não fica tão longe assim.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Um grito de morte não emite nenhum som



          E todos puderam ouvir o baque.
        Eu havia sonhado com precipícios e abismos, profundezas obscuras e monstros. Eram reais demais. Abri as cortinas do meu quarto, admirei a vista da rua: algumas árvores altas e bonitas, o cheiro de mata, as pessoas caminhando para o Jardim Botânico. Peguei minha câmera e um pedaço de bolo que estava sobre a mesa e desci as escadas lentamente, deixando o elevador de lado. Algo estava diferente.
        Fotos espalhadas pela rua, cada rosto era uma nova identidade, uma nova informação. Para um fotógrafo como eu nada passa despercebido, ou ao menos sem uma profunda análise introspectiva. O escritório não seguia muito bem, matérias fracas e pouca venda, mas eu sentia que as coisas mudariam. Estava cheio de ideias novas para apresentar ao Marcos, o editor-chefe.
        - Marcos! – Foi a primeira palavra que ouvi ao entrar no escritório. Folhas voando, pessoas correndo, mulheres chorando, homens brigando, uma confusão que eu não entendia.
        - O que aconteceu? Onde está o Marcos? – Perguntei assustado.
        - O Marcos chegou bem cedo e pregou aquele papel na parede, e depois foi embora. – Disse a secretária em meio ao choro.
        Aproximei-me da parede, onde o aviso dizia: “Antes de tudo, gostaria de agradecer por todos esses anos que passamos juntos, trabalhando e dando o nosso melhor nesta editora. Porém, há problemas que não podemos resolver. As dívidas, a venda baixa e o alto custo do escritório nos fizeram ir à falência. Sim, posso ter escondido isso de todos vocês por algum tempo, mas está claro que não há saída. Todos estão demitidos, inclusive eu. Desculpem-me por isso, mas eu fiz o possível e o impossível para continuarmos juntos.
Marcos André Tater”.
        Eu não acreditei de primeira, fiquei atônito, não sabia o que pensar. Eu havia sido demitido. Eu me sentia dentro do gigante abismo do meu sonho, sendo sufocado pelos monstros. Agarrei a minha câmera e corri para fora dali, fugi de mim e dos meus pensamentos. Desviei do meu caminho de casa e fui até o Corcovado, eu precisava fazer aquilo.
        Lá no alto, com aquela vista maravilhosa eu pensava comigo mesmo como resolver tudo aquilo. Tirava algumas fotos, escondia-me atrás da lente. Foi então que avistei Marcos André admirando a vista também.
        Há coisas que só uma lente pode registrar: os sentimentos exacerbados de um exato momento, as emoções de um olhar, os gestos minimalistas. Pela lente eu enxergava um mundo novo, não sabia o que fazer sem aquilo na minha vida. Encostei-me mais na sacada, apontei a câmera novamente para Marcos. Foi então, em questão de segundos que ele subiu e se jogou. Sem discurso, sem melancolias, sem desespero. Somente a sua vontade de parar de existir naquele momento.
        Corri até o seu lugar, olhei para baixo e fitei o seu corpo ensanguentado, todos puderam ouvir o baque. Revi as fotos que tirei, eu havia registrado os últimos momentos de Marcos, os momentos finais de angústia antes de um último adeus.
        - Mas o Rio continua lindo. – Falei em voz baixa enquanto tirava uma última foto.