quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Trecho sorridente


“E se eu parasse para pensar
Em todas as vezes que chorei,
Perceberia que há motivos
Para vir a sorrir outra vez”.

Só um trecho da cartinha que escrevi para o meu amigo.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Folhas no cimento


                       
            Se olhar pela janela me lembrasse dele, fechava os olhos. Se o cheiro do mar me lembrasse dele, prendia respiração. Se doce de abóbora me lembrasse dele, não ousaria degustá-lo novamente. Tudo isso não me lembrava de James, mas sim as pálidas ruas de Nova Orleans, as músicas de Louis Armstrong que costumávamos escutar, o sorvete de caramelo que ele comprava para mim todas as sextas depois da aula de piano. Nunca mais consegui ir aquela sorveteria, é como se ele ainda estivesse sentado na cadeira azul, olhando todos aqueles sabores e decidindo em qual mergulhar profundamente. Ele me ofereceu um sorvete, e tudo aconteceu, era como mágica. E todas as vezes que espreitávamos a porta do quarto de seu pai, para escutar as melodias do jazz, embriagavam-me como o sorvete de caramelo. Repetíamos as músicas no piano, cantávamos em uma desafinação conjunta, e eu não me importava.
            Aprendi que os troncos das árvores têm histórias, e no final de semana íamos ao parque escutá-las. Abraçávamos uma árvore e ficávamos nos entreolhando, mas no final não eram as árvores que tinham histórias, mas nós que estávamos fazendo a nossa.
            Ás vezes nós ríamos sozinhos, sentados no meio fio olhando os carros. Pensávamos que éramos felizes assim, e que as pessoas, presas nos seus carros, não conseguiam aproveitar o de melhor fora deles. Perdiam muito tempo indo e vindo de lugares desnecessários, dirigiam até padarias que ficava na esquina de suas casas. Preguiça ou costume, perderam a habilidade de apreciar as pequenas coisas. Um dia, James veio correndo até mim com uma folha enorme na mão:
            “- Fernanda, Fernanda! Olhe esta folha!
              - E o que tem?
              - Não vê? Está cheia de cimento?
              - E o que uma folha com cimento tem de tão especial? – E ele me levou até a calçada que havia cimento ainda úmido, e eu vi exatamente a forma da folha desenhada no cimento.
              - As árvores podem morrer, as folhas podem ser levadas pelo vento, tudo isso é natureza, mas esta folha nunca será esquecida.”
            E eu olho aquela folha guardada na minha gaveta do criado mudo, todos os dias desde que ele se foi. Eu imagino o baque do carro, ele estendido no chão, sem mim. Ferido por uma pessoa desatenta aos detalhes, que perdeu habilidade de viver no nosso mundo, que dirigem para chegar a lugar nenhum. Ela chegou ao meu amigo, e ele não teve nem a chance de se despedir de mim, ou de lutar por mais um sorvete de caramelo, por uma nota de jazz. O baque foi tão forte que ele permaneceu imóvel.
            Eu não o vi no chão, não o vi no enterro, só nas minhas lembranças. Foi uma sexta-feira, ele me levou à sorveteria e comprou um sorvete de pistache, dizia que precisávamos ver o mundo mais verde, mais cor de pistache. Dizia que mudar é bom, mas que permanecer gostos é essencial. O sorvete caiu na minha camisa, ele riu. Eu o sujei, manchou a camisa dele. Prometemos ir à escola na segunda-feira com a camisa manchada, só para mostrar que o pistache tem o seu lugar no mundo, e nas nossas camisas. Nós nunca chegamos a ir à escola, tudo aconteceu no sábado.
            Dizem que a morte é apenas uma travessia do mundo, tal como os amigos que atravessam o mar e permanecem vivos uns nos outros. O James permanece vivo em mim na música, no sorvete, nas árvores, na calçada, nas folhas de outono, na minha camisa manchada. Eu permaneço machada de pistache, marcada na calçada, porque ele foi essencial na minha vida. Eu mudei de gostos, mudei de casa, mudei de opinião, mas mantive o que era bom. James era bom, e eu o mantive na minha memória. As árvores podem morrer, as folhas podem ser levadas pelo vento, tudo isso é natureza, mas o meu amigo nunca será esquecido.


Pauta para Bloínquês, 127ª edição conto/história, tema: negrito. 

P.S.: Imagem do site JB Studio Arte, do meu pai.

Avaliação Detalhada: Primeiramente, amei muito as alusões ao jazz. O jazz dá uma elegância imensurável no texto. E os detalhes, os pequenos momentos de felicidade que as personagens vivenciaram deram uma identidade ao texto. Não é uma história aleatória, é uma história com situações marcantes, memórias. A perda de um grande amor nos dói o coração e dilacera a alma, é tal sentimento que eu quis trazer na frase-tema, mas com uma visão otimista. E você cumpriu com propriedade a proposta. Um maravilhoso conto, sem dúvidas.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O peixe viu o feixe



            Eu já não sinto tanto medo do escuro quanto antes. Eu me acostumei com a  de claro e escuro, de dias bons e ruins. Eu já não penso mais assim. Alguns devem ter privilégios, e só a palavra já diz que um tem mais que o outro. Talvez seja sorte, destino, ou as escolhas. Talvez eu seja muito sortuda, ou que a chuva do azar cai sobre mim todos os dias. Estive analisando os prós e os contras de viver. Eu sinto, amor e dor. Eu vejo, coisas belas e atrocidades. Eu sonho, com o meu mundo e um imaginário. Eu respiro, a vida e a poluição. Eu falo, o bem e o mal. Eu choro, de alegria e de tristeza. Eu sou. Quem eu sou, quem eu quero ser.
            Talvez viver não seja tão bom, ou nem tão ruim. Não seria uma grande aventura morrer? Eu morro. Aos poucos, quando o meu nome for riscado. Fernanda. Suponho que nomes riscados tenham conhecido aquela tal escuridão de que falei. Nomes riscados já viram de tudo, ou pelo menos o que precisavam, ou não, ver. Viver vale a pena, o nanquim e o papel. Vale pelas memórias, pelo ser e pelos outros. Vale por cada beco escuro e cada aura mal iluminada. Que o escuro me consuma, que consuma a todos nós, que a tristeza invada o nosso ser, para quando o sol entrar, que a vida valha a pena. Se a claridade não tivesse o seu oposto, se nós não tivéssemos dois lados, como seríamos felizes? Como poderíamos sentir, ver, falar, viver? Como poderíamos criar tantos verbos para descrever a mesma sensação? A sensação de ser, de perceber que você é único, e que nada mudará isso. 
            Eu já não sinto tanto medo do escuro quanto antes, pois esta escuridão me fez ver melhor. Fez-me perder o medo de mostrar quem eu sou, tirou-me tudo, trancou-me com a solidão. E hoje eu não me sinto tão só, porque ela me deu a certeza da luz. O ditado que sempre há uma luz no fim do túnel? Ele pode ser o quão comprido quiser, e mesmo assim conseguiremos ver o feixe. Agradeço a todos que cavaram o meu túnel. Que grande aventura é viver.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Nosso dia de todo ano

Hoje é dia do escritor! Parabéns à todos aqueles que passam horas escrevendo, ou não, mas levam isso a sério ou como um hobby. E para a alegria de hoje, aí vai um haicai escrito por mim:

'Fitando os diários
O escritor no seu universo,
Dia dele, só versos.'

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Laços primários



Não me implore para repetir semblantes,
Por quantas vezes eu conseguirei fazê-lo?
Caminhando por essas estradas brilhantes,
Vejo que todos os anos um pouco envelheço.

O motivo não é a importância que eu dou,
Os momentos sim, que quero poder viver.
Sempre lutando para seguir no que sou,
Mesmo com tantas pedras duras a suster.

E no raiar do dia no meu aniversário,
O relógio desperta e mostra, hoje é a data
E sei que nunca mais serei tão solitário.

E aos meus amigos, bons e fortes acrobatas,
Que ajudam-me a mover as pedras da jornada,
Meu eterno carinho, e meu muito obrigada.

--

Hoje, dia 12 de julho de 2012, faço 16 aninhos. Parabéns para mim!! Este soneto é o meu presente de aniversário para todos vocês. Espero que gostem!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Imensidão crepuscular



                Eu estava deitada na prancha de surf, sobre o mar calmo, as mãos submersas na água gélida. Ele parou a prancha dele ao meu lado, estava com o corpo mergulhado, e os largos braços cruzados e apoiados, os olhos me fitando.
                - Alguém já te disse que você tem olhos lindos?
                - Não. – Respondi enquanto buscava alguém na memória que alguma vez tivesse elogiado meus olhos castanhos.
                - Seus olhos são tão bonitos, penetrantes. Não são da cor escura do pinheiro ou do carvalho, são mais simples, mais tocantes. Também não se comparam ao mel ainda na colmeia, claro e doce. Seus olhos são como o pôr do sol, magnífico e calmante. É o marrom da mistura de cores do crepúsculo, o azul misturado com o vermelho, as ondas de amarelo, o castanho no final das nuvens. Sim, eles são como a noite que me magnetiza, eles me fazem pensar sobre os anseios da vida, passam calor, passam escuridão. Refletidos na água do mar, a mesma onde o sol se pôs, eles me chamam para um mergulho. Nunca diria não, na verdade eu não diria nada. Apenas mergulharia nesta sua imensidão tão complexa e encantadora.
                Aqueles segundos que fiquei parada, encarando aqueles olhos azuis celestiais me fizeram perceber a quão apaixonada eu estava. Não hesitei, mergulhei e sumi alguns instantes, retornando com o rosto molhado e a boca pronta para um beijo de poesia.

domingo, 17 de junho de 2012

Ser de sensações


                       Estava pensando com os meus botões enquanto tomava banho, porque sabem que as melhores ideias vêm de uma fonte de água que cai devido à gravidade em nossas cabeças e nos faz filosofar sobre os mais diversos assuntos, e pensei na sensação boa que era receber um jato de água quente sobre as minhas maçãs do rosto, que são grandes o suficiente para me proporcionarem diversas. Resolvi, então, escrever sobre as melhores sensações do mundo para mim, as quais devem ser iguais, parecidas ou talvez nunca pensadas por vocês. Sei que uma frase levará a outra e assim por diante, talvez eu nunca termine este texto, talvez eu sinta demais e goste até mais do que devia deste fato. Uma sensação puxará outra, e por infinitas linhas os seus olhos passarão da esquerda para direita, mas isso não me incomoda, não deveria te incomodar também. Conforme você for lendo, sentirá que deve continuar, porque não sabe o que virá a seguir, se você vai descobrir algo novo para tentar, ou se simplesmente dirá à você mesmo o quanto se parece comigo. Devo já começar o texto, tendo este parágrafo enorme só como introdução, talvez me achem chata, mas passem os olhos pelas linhas abaixo e vejam se no final, ou onde a lâmpada na sua cabeça acender, continuarão com a mesma opinião.
                Ainda no banho, outra sensação que me agrada é quando o jato alcança seus cabelos, desce pelos ombros e assim por todo o corpo, chegando aos pés. Se o corpo estiver quente e a água fria, ela é mais acentuada ainda. Adoro quando estou suja demais para me aguentar e entro no chuveiro, é como se uma parte de mim estivesse descendo ralo abaixo. Mudando um pouco do aspecto do banho, a sensação de quando é beijada no rosto é quase indescritível.
                Hoje eu sonhei que um tal de Felipe, que nunca vi na minha vida, estava jogando um jogo o qual nunca vi também: éramos dois times, um com espadas e outro com algo que não me lembro, sendo o meu time o que não me recordo. Perdi minha arma, talvez tenha sido isso que me fez esquecer o que era, e o jogo começou. Ele veio me atacar e eu segurei sua espada, atacando-o e o ‘matando’. Claro que ele não morreu, mas agora era inválido no jogo. Ele começou a conversar comigo e viramos amigos de longa data, esquecemos que éramos inimigos. No fim do sonho, sendo esta a última coisa que me lembro, ele me beijou no rosto e tudo se apagou. Oh! Que sensação boa, de vergonha, timidez, mas de carinho ao mesmo tempo. Receber um beijo no rosto de um estranho, conhecido, namorado ou familiar é muito bom. E os beijos na testa? Remetem, pelo menos para mim, um gesto de estrema proteção. Lembro-me de apenas de quatro pessoas que fizeram isto comigo: os meus dois pais e meus amigos Tiago e Felipe. Talvez não seja a mesma coisa para você, leitor, mas para mim significa muito.
                Correr atrás do que se quer também me deixa muito feliz, não no sentido de alcançar o que se quer, mas de correr com as suas próprias pernas, no chão. Acho que continuo sendo metafórica neste ponto, mas vamos ao exemplo: quando você corre em um parque, na rua ou na escola, sem ninguém na sua frente, tendo em mente alcançar um ponto, isto não te dá uma sensação de liberdade e confiança? Acho que cheguei ao meu ponto, pois sim, correr atrás do que se quer e sentir o vento nos cabelos é uma sensação perfeita para mim.
                E quando se abraça alguém que não se vê há muito tempo? Aquela pessoa que tanto significa para você e que já ficou horas no telefone a fio? A sensação de abraçá-la, segurá-la por um tempo infinito e incalculável não me permite dizer tudo o que queria. Sexta-feira passada, guarde a data deste texto, se não ficará perdido no tempo, abracei alguém que não via há séculos, Fernando. Sim, meu xará masculino e meu amigo, se é que vocês entendem o sentido de amigo aqui. A sensação de paz, de carinho, de saudade se esvaindo, tudo junto e misturado, que não queria sair de mim. Se soubesse o quanto isto era bom, ficaria mais tempo sem vê-lo, só para relembrar tudo, mas não aguentaria isso.
                Comer quando se está com fome, ou só porque a comida é deliciosa, também é muito bom. Ontem, na Confeitaria Colombo, degustei um waffle com sorvete e cobertura de framboesa. Posso descrever em uma palavra o que senti quando levei à boca o primeiro pedaço: felicidade. Vocês devem sentir isto também quando estão perto do momento de saborear umas das suas comidas favoritas, é aquele momento de adoração, que a boca enche de água e que o seu estômago sabe que receberá mais uma dose de felicidade.
                Finalmente entender uma matéria é igual a fogos de artifícios em mim, principalmente em física e química. Não sei vocês, mas eu adoro aprender, só tenho um pouco de dificuldade quando não entendo nada da aula e fico boiando depois.
                Como pude me esquecer de dormir? Todos, mas digo todos amam dormir. Mais cinco minutos é o que pensam quando acordam cedo demais para ir ao colégio, trabalho ou qualquer outra coisa. Melhor do que dormir é acordar no meio da noite e perceber que ainda faltam mais de três horas para o despertador tocar!
                A sensação que descreverei a seguir não é uma das minhas favoritas, mas tem vezes que sinto saudades de fazê-la. Andar descalço na praia. Sentir a areia por entre os seus dedos, o calor que ela tem no momento, sentir o mar bater contra os seus pés enquanto você caminha, chutar a água para o alto, tudo isso são as sensações da praia. Gosto mais de cachoeira, a água batendo nas suas costas na queda d’agua, a adrenalina de cair em uma pedra com limo, o ar puro, o sol entre as árvores, tudo muito natural, muito perfeito. Os dois me trazem lembranças boas, de construir castelos de areia e de observar pedra formando círculos quando atiradas na água.
                Mergulhar no mar azul faz parte da descrição acima. A água gelada e o mar infinito, as ondas que batem na sua cintura até que você tome coragem para imergir. E quando isto acontece, ainda no fundo, você sente a água invadindo cada pedaço de si, o sal retirando todas as impurezas do seu corpo. E quando emerge a superfície nada é como antes, o sol parece mais amarelo e a água um pouco mais verde, e você se sente nova.
                Lembrar-se de alguém quando se escuta uma música. Dormir ouvindo a sua predileta. Reparar que o seu vizinho está escutando ‘I want to break free’ do Queens e parar de digitar só para ouvir, que seria o meu caso neste exato momento às 19h53min. Lembranças e descobertas que nos fazem sentir vivos, que existe alguém lá fora que te escuta e que te entende, a sensação que você não está sozinho no mundo.
                E o cheiro de um livro? Aquele novo que acabou de ser comprado, ou mesmo aquele velho que estava na estante da sua avó. É um novo mundo que adentramos para fugirmos da realidade, e ali nos sentimos seguros de tudo e de todos, e viajamos...
                Algumas pessoas podem discordar de mim, mas encontrar o lado frio do travesseiro no meio da noite me dá uma sensação de conforto, de alívio. Igualmente quando a sua cabeça encaixa certinho, quando você encontra aquela posição que não quer sair jamais.
                E aquela velha história que amigos se contam nos dedos vem a calhar agora. Aqueles momentos rápidos de risadas que se tem com eles, aquelas piadas sem graça de todos gostam, vulgo Mylenna agora. A falta de ar que temos uma vez ou outra de tanto gargalhar, e as maçãs do rosto que ficam doendo depois de tantos sorrisos. É como se o mundo todo estivesse ali, como se o seu mundo estivesse ali, tudo o que você precisasse estivesse bem ali, debaixo dos seus sorrisos.
                Encontrar alguém com os mesmos gostos que você. O mesmo gosto de escrever, Amanda deve entender, o gosto musical, o gosto de jogar boliche, o gosto de fotografar. A sensação de compartilhar com os outros o que você sabe sobre aquele assunto, e ver a admiração da pessoa prestando atenção. É uma sensação de orgulho de si mesma, porque o ser humano tem em si o ato de compartilhar e receber, de interagir com o outro e de se sentir bem com isso. Encontrar alguém parecido com você faz com que nossas qualidades sobressaltem em nós e nos outros, faz-nos pessoas melhores.
                Percebo agora que já estou me prolongando demasiadamente, mas faltam ainda tantas ações que nos provocam tantas sensações. Andar de bicicleta pela primeira vez, andar de mãos dadas com quem se ama, admirar-se com algo, notar que você estuda o que você quer ser, orgulhar-se de algum trabalho seu que demorou mais tempo do que devia para ser feito, receber um segredo de alguém, salvar uma pessoa de ser atropelada (sim, em São Cristóvão é comum ocorrer salvamentos), não deixar que o andar de baixo do seu prédio pegue fogo...
                Antes de terminar este texto, deixe-me contar sobre o dia em que me senti a salvadora da pátria. Serei rápida. Já estava de noite, por volta das onze horas da noite, não sei o que fazia acordada, mas um cheiro de queimado não me permitia ficar quieta. Fumaça pela casa, mas não havia nada no forno. Olhei para o andar de baixo e vi uma fumaça preta saindo do primeiro andar, e eu estando no terceiro. Desci apressadamente, bati na porta, avistei o proprietário roncando no sofá e a fumaça subindo. Toquei o interfone, o cachorro latiu, ele acordou, a mulher acordou. Quando ele abriu a porta não houve outra reação se não perguntar se algo estava queimando, e obviamente estava, devido a casa dele estar mais preta do que qualquer coisa. “Não foi nada, minha mulher esqueceu uma panela no fogo”. Sim, esta é uma desculpa razoável, mas como não acordaram? Como não sentiram o cheiro de queimado que me atazanava lá no terceiro andar? Como não ouviram os meus gritos? Senti orgulho de mim mesma, sendo a salvadora do dia, e do prédio.
                Ah quantas coisas ainda há para descrever, e quantas histórias ainda têm para contar, mas suponho que já estejam cansados de mim. Se você, leitor, conseguiu chegar até aqui, agradeço pela atenção. Não é todo dia que a recebo, e devo dizer que esta é a última sensação que relato hoje. Ser escutado é se sentir o dono do mundo, sentir-se importante, notar que o seu assunto não interessa só a você, mas que é discutível a outras pessoas. Não ser ignorado é ser aceito, ser percebido. E nesses poucos, ou talvez muitos, momentos de conversa atenta, compreendemos que um texto enorme não diminuirá o seu tempo de vida e nem será em vão, porque quando se presta atenção a qualquer coisa, ela passa a ser importante. Porque todos têm a sua importância, e os olhos que leem o papel ou os seus lábios são os mesmos que enxergam o mundo, e como você e as suas sensações são vividas, mesmos tão dentro de si, mesmo tão simples de tudo.