sexta-feira, 1 de abril de 2011

Pergaminho I – O início

                            Pergaminho I – O início.

          Este pergaminho conta uma parte da história de Íctia, uma terra muito distante de tudo o que se conhecia, encontrava-se no meio do mar do norte, e nenhum navio nunca conseguiu alcançá-la.
          No início dos tempos a terra era governada por seis dragões, cada um possuía o seu respectivo dever, que juntos, mantinham a harmonia do lugar. Írias era a rainha, controlava as estações; Ícaro era o rei, controlava os ventos; Dandara possuía poder sobre as águas, Scar mexia com o fogo; Azule era responsável pela terra e tudo que provinha dela; e Vívara pelos animais que habitavam a terra.
          Havia um segredo que eles guardavam, e nunca fora dito à população dragoniana. Eles se transformavam em humanos ao anoitecer, mas como tinham medo da população alcançar a terra humana, faziam eles dormirem olhando para lua. Utilizavam o motivo que a meditação à noite sem interrupção era importante, e a lua os fortalecia. Os seis dragões se transformavam em humanos e dançavam a noite toda, enquanto os outros estavam enfeitiçados pelo luar.
          Írias e Ícaro eram brancos e possuíam cabelos e olhos negros; Dandara tinha olhos azuis como o mar e cabelo castanho claro; Scar era ruivo dos olhos cinzas; Azule era negra com olhos e cabelos escuros, e Vívara era morena com olhos e cabelo cor de mel. Em forma humana, eles eram muito mais bonitos e alegres, mas também egoístas e ignorantes, defeitos que não havia descoberto ainda. Todos altos e com uma grande presença, até que todo a pretensão veio a derrubá-los.
          Dandara formava as nuvens para a chuva, mas Ícaro não as espalhava pelo céu. Azule começou a não cuidar das terras, e a comida estava escassa pela falta de chuvas, logo, mais animais estavam sendo mortos e Vívara não conseguia mais administrar as espécies. Írias estava trazendo o inverno, que seria o mais rigoroso de todos, necessitava da ajuda de Scar para manter o sol brilhando mais forte ao nascer do dia. Mas Scar estava muito ocupado como ferreiro para ouvir as ordens.
          Íctia estava em desequilíbrio, sofrendo pela falta de comida, água e calor. Os dragões começaram a se perguntar o porque disso tudo, sem saber sobre a transformação. Foi em uma das noites de lua cheia que osseis dragões se transformaram e brigaram. Culpavam um ao outro pelo o que estava acontecendo. Ao nascer do dia, não encontraram Írias em seu aposento, e o rei imaginou que ela tivesse voado para a terra humana.
          Íctia ficou por três anos em um inverno rigoroso, quase toda a população e os animais foram extintos. Mas os cinco dragões continuaram a viver e se transformar todas as noites. Quando a lua não apareceu nos céus, Írias voltou com cicatrizes por todo o corpo, o cabelo, antes longo até a cintura, estava acima dos ombros, e seus olhos carregavam profundas olheiras. Ela levantou as mãos e bateu bem no alto da cabeça, fazendo com que o luar penetrasse na janela e iluminasse todo o castelo, onde se encontravam. Scar foi até a janela e viu que as nuvens haviam ido embora, e que o tempo estava melhor, que poderia receber forças do sol novamente após três anos de angustia.
          Todos se perguntaram o que aconteceu com a rainha, e ela os contou que, quando chegou ao continente, os humanos a atacaram. Foi tão rápido que não houve reação, estava muito cansada por ter voado catorze dias, parando a noite em pedras para dormir com o seu corpo humano. Ela disse que os humanos a chamaram de bruxa, que estava possuída e outras coisas que não se lembrava. Prenderam-na em uma cela e chamaram um padre, que a benzeu e disse que os seus olhos eram do demônio. Ela nada fez, ficou parada, quieta em seu canto. Não a libertaram durante três anos, pois desaparecia de manhã, mas estava ali, invisível na forma de dragão para os humanos. Acreditavam seriamente que era uma bruxa que voltava todas os noites para assombrar o continente, já que as estações estavam mudando de mês em mês. Ela estava fraca e doente, não possuía mais controle sobre os próprios dons, e deixava-se levar pela fraqueza a cada noite.
          Suas cicatrizes mostravam as tentativas de sair da cela, já que ficava se debatendo a noite toda. Contou que cortou o cabelo para mostrar que não era uma bruxa, já que acreditavam que o cabelo negro retirava poderes da lua para matar os humanos. Eles a tiraram da cela e a jogaram no mar, amarrada em um saco. Ela permaneceu ali por quatro dias, até bater em uma rocha e recuperar a consciência, rasgando o saco e voando de volta a sua casa.se juntaram, uniram forças e reconstituíram Írias, alongando o seu cabelo e alisando sua pela branca. Ela voltara a sorrir e o equilíbrio estava em ordem. Todas as noites se transformavam em humanos novamente, mas ficavam em silêncio, contemplando um ao outro, contando piadas ou passeando pelos rochedos de Íctia.
          As chuvas voltaram a cair, os animais se multiplicaram, o sol brilhou nos céus e as estações estavam em sintonia. Tudo estava em seu lugar, e os dragões estavam em harmonia entre si e a terra. Prometeram nunca mais tentar ou ir ao continente, pois era suicídio. E eles continuaram vivendo suas vidas, transformando-se, escondendo o segredo da população e cuidando de todos para uma vida duradoura.
                                                            Ferdinando – O dragão escritor

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Clique na imagem acima para ver o texto em um pergaminho. Eu acho mais legal assim!

2 opiniões:

Kobayashi disse...

MUITO bom cara. De verdade. Não gosto muito de ficção mas está realmente bem escrito e rico em detalhes o que ajuda na interpretação e visualização da narrativa na cabeça do leitor.

Tens talento mas espero uma continuação!

Abraço e sucesso

Gêsa disse...

Adorei a construção do texto e a exploração de mitos e tudo mais. (:

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